Na Copa do Mundo de 2006, um dos maiores jogadores da história do futebol deu adeus ao esporte de maneira desastrosa. O mestre Zinedine protagonizou, no segundo tempo da prorrogação da final contra a Itália, um dos mais absurdos ocorridos de todas as Copas. Caiu na provocação do zombeteiro zagueiro Materazzi, e num impulso colérico inédito descarregou uma cabeçada no peito do italiano. Uma cicatriz inesperada para encerrar uma brilhante carreira, e que, por bem ou por mal, elevou o craque ao mais mítico dos planos futebolísticos.
Todos sabem que Zidane tem crédito. Carregou a França nas costas durante anos, inclusive nas conquistas da Copa de 98, em casa, e da Euro em 2000. Mas a melhor equipe daquela Copa não disputou a final. Recheada de craques como Bergkamp, van der Sar, Seedorf e Davids, a Holanda voava. Também pertencia a esse grupo o lateral esquerdo Giovanni van Bronckhorst, então com 23 anos. Mas Gio amargou durante toda a competição o banco de reservas, e assistiu de fora das quatro linhas a dolorosa eliminação que o Brasil impôs aos comandados de Guus Hiddink, repetindo 94. Naquela noite, brilhou na disputa de pênaltis a estrela do nosso eterno Taffarel. Até hoje, muitos consideram a vitória brasileira injusta, visto que sucumbiríamos na final de forma ainda mais dramática, para não dizer patética, apanhando com dois gols de Zidane.
Nos anos seguintes, o selecionado holandês parecia ainda sentir a derrota. Não conseguiu sequer a classificação para o Mundial de 2002. Em 2006, na Alemanha, perdeu nas oitavas-de-final para Portugal, no jogo mais violento da história das Copas, com 16 cartões amarelos e 4 vermelhos. Van Bronckhorst foi um dos expulsos.
Enfim, a Holanda chegou à África do Sul confiante, embalada em uma sequência de mais de 20 jogos sem derrotas. O capitão do time? Ele mesmo. O filho de imigrantes anunciou pouco antes da estreia que se aposentaria ao fim da Copa. E vale tudo para encerrar a carreira com o título desportivo mais cobiçado do planeta. Foi assim que, surpreendentemente, a Holanda viu-se disputando a semi-final da Copa do Mundo. Circulando feito um inseto curioso, fingindo ousadia, só que inofensivo.
E no décimo oitavo minuto da partida contra o Uruguai, uma violenta oscilação. Um movimento brusco, sacodindo a onda conformada do jogo. Uma reza, ou uma confissão. Toda a sinceridade inerente ao balaço em um voo seco e enérgico. Não tenha dúvida. Foi inesperado, como era esperado, o balaço d’ouro. Conheça a delícia que coroa a pirâmide de tubos espetaculares de todo o ano até aqui. Caiu do céu uma posição até então imérita, na grande final. Aceita, Holanda!
Chupa esse balaço, Muslera!